Com a Pena e o Tinteiro

7 jun

Querida Mãe,

Sei que quando ler essa carta, ficará supressa, e não lhe culpo por isso; foram anos de silêncio.

Mas finalmente me sinto à  vontade para lhe contar o que aconteceu naqueles dias negros de minha vida.

Quando eu e Michele resolvemos viajar  para à África, não achei que fosse um erro, mas agora não penso assim.

Logo que chegamos ao Congo tivemos dias maravilhosos. Nosso guia era atencioso e pudemos conhecer lugares fantásticos.

Até um dia fomos conhecer uma aldeia no coração da savana, Akim nosso guia, contou que hoje era um dia festivo para aquela tribo, que eles estavam agradecendo aos deuses da caça por terem sido generosos com eles, que a festa duraria vários dias mas que hoje à noite haveria um ritual proibido aos brancos. Participamos da festa, e nos divertimos muito. Ao voltamos para acampamento, Michele comentou estava curiosa para conhecer o tal ritual. Não falamos mais disso e ao anoitecer depois do jantar ela se excedeu no álcool e insistiu que déssemos uma olhada no tal ritual, que não havia mal nisso, que eram apenas crendices dos nativos, como sempre cedi aos seus caprichos e saímos furtivamente.

Ao nos aproximarmos, vimos a cerimonia, tambores tocando, havia uma enorme fogueira e pessoas envolta, vestidas com roupas coloridas. Apenas dois homens e uma mulher destoavam da cena, pois eles vestiam roupas douradas. A mulher estava sentada em uma cadeira próxima a uma espécie de altar, ela tinha o rosto coberto. Um dos homens estava ao seu lado, tinha uma coroa cheia de pedras e o outro estava ao centro e entoava cânticos. Michele sorriu para mim e começou a dança, estava tão linda e sensual. Ao olhar novamente para a cerimonia percebi que havia uma moça amarrada a um tronco e o homem que conduzia o ritual tinha objetos em suas mãos. Ele se sacudia freneticamente e ao olhar para o lado, vi que Michele repetia seus movimentos, fiquei assustado e segurei seu braço.

Michele olhou-me com olhar diabólico e empurrou-me ao cai, ela deu uma gargalhada e seguiu em direção a aldeia. Quando me levantei, os tambores pararam e ela foi até o homem que era uma espécie de feiticeiro, pegou os objetos que estavam em suas mãos, só assim pude ver que se tratava de um cálice e um punhal, e os tambores voltaram a tocar, Michele agora conduzia o ritual.

Corri, mas não consegui deter os eventos que se seguiram, minha esposa apunhalou a moça e bebeu seu sangue. Gritei aterrorizado, tentei chegar até ela mas alguns homens me seguraram. Michele falou algo que eu não compreendi e riu, todos cantaram e ela começou a dançar e rodopiar. Então parou e Michele desmaiou. Nesse momento todos cantavam alegres e os homens me soltaram, fui até ela e tentei acorda-la. Mas ela não acordava, levei-a para o acampamento.

Akim nos recebeu atônito e chamou as criadas e elas banharam minha esposa. Quando finalmente Michele acordou, não falava, apenas ficava com olhar perdido e uma febre muito forte. Chamei um médico e depois de examina-la ele disse que ela estava catatônica e ele não podia fazer nada. Mesmo assim não desisti e tentei baixar sua febre por três noites. Até Akim disse que era tarde demais, que sua alma havia sido levada pela deusa, que nos havíamos sido punidos por desrespeitar suas ordens.

No terceiro dia depois de passar em sua cabana, fui para minha ler um pouco, já era quatro da manhã quando ouvi um grito e corri para cabana de Michele e ao chegar lá, fui tomado pelo horror. Onde antes descansava o corpo de minha linda esposa, havia um cadáver em decomposição. Não consegui observar aquela cena por muito tempo e sai atordoado, quando Akim chegou olhou para mim com olhos penosos e falou para mim que a alma de minha esposa havia sido roubada. eu perdi as forças e hoje mãe, sei o que é dor e desespero.

Deixei que eles fizessem o enterro, tudo foi feito na aldeia pelos seus habitantes. Vi de longe, não conseguir fazer nada.

Parti da África sem me despedir dela. Meu coração ficou lá. Me senti sem alma também, tive que mudar tudo em minha vida para poder continuar existindo depois daquilo.

Por isso mãe, nunca lhe contei, nem à você, nem à ninguém. Na verdade não tive coragem. E apesar de ter se  passado anos, nunca vou esquecer aqueles dias.

Com amor, seu filho

Katia Lopes

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