Com a Pena e o Tinteiro

21 jun

Era uma vez em Añoranza

Em minha juventude morei em uma pequena cidade do México chamada Añoranza, que significa “saudade” em português.

É fato que nessa idade não se tem medo de nada e minhas amigas e eu costumávamos brincar dentro do cemitério. Que brincadeira mórbida, vocês poderiam dizer, mas o cemitério em Añoranza era lindo, parecia um jardim e não nos trazia medo. Ele tinha algumas lapides, mas todas nos chão como placas. Havia também alguns mausoléus, que pareciam pequenas capelas, tudo muito limpo e bonito. Entravamos escondidas do José, o coveiro,  ficávamos lá a tarde inteira.

A morte para nós era algo distante, que dificilmente aconteceria em nossa pacata cidade. Até que um dia, numa sexta feira cinzenta de chuva, no final da tarde, como sempre nos encontrávamos no portão do nosso lugar preferido.

Anita desta vez havia trazido um livro sobre espíritos e coisas parecidas e não estranhamos porque ela sempre se metia com isso. Rosa e eu rimos um pouco, mas respeitávamos o interesse de Anita por esses assuntos sobrenaturais. Entramos e sentamos embaixo duma árvore.  Rosa cantava suas canções antigas, Anita lia seu livro, sossegada e eu, sonolenta, resolvi dormir.

Acordei sentindo uma mão em meu ombro. Abri os olhos assustada e vi a cara de Anita olhando para mim. Procurei Rosa e não vi. Foi quando Anita me contou que ela e Rosa tinham ido ate um mausoléu e lá Anita a havia convencido a participar de um ritual do livro que atraia um espírito para o corpo de alguém. E foi o que aconteceu com Rosa.

Fomos até lá e encontrei Rosa deitada em cima de uma espécie de túmulo. Havia apenas uma lamparina acessa e ao tocar seu corpo, estava gelado. Olhei para Anita, que estava na porta, calada.   Sem saber o que fazer, resolvi pedir ajuda a José. A essa altura já era noite e corri em direção à pequena luz que reconheci como a casa do coveiro. Antes de chegar lá fui interceptada por ele, que me olhou com reprovação, como se já soubesse o que tinha acontecido. Pedi sua ajuda e contei no caminho o que ocorrera. José foi compreensivo e ao se aproximar do corpo de Rosa começou a cantar algo estranho que na época não pude identificar, mas que hoje descrevo como alguma canção indígena.  Depois que José terminou, Rosa se levantou contente e nós a abraçamos muito.

Antes que saíssemos, porém, Anita perguntou a José o que era aquilo que ele havia feito e ele então nos contou uma história que jamais esquecemos.

Ele contou que há muito tempo, quando a cidade era só um vilarejo e a lei era feita por homens com armas, chegou a cidade um pistoleiro temido em muitas regiões. Seu nome era Pablito e havia muitas mortes por seu encargo. Todos que tentavam desafiá-lo não sobreviveram para contar a história.

Pablito começou suas arruaças ameaçando as famílias da Vila de San Pedro, como chamavam nossa cidade nessa época. Ninguém mais ousava desafiá-lo até aquele fatídico dia, o mais longo da Vila de San Pedro. Pablito conhecera Carmelita, a moça mais bonita da cidade, noiva do xerife. Apaixonou-se logo por ela, mas ela não correspondeu às suas investidas. Enfurecido ele resolveu vingar-se da cidade matando seus habitantes pouco a pouco. O xerife resolveu então enfrentá-lo no intuito de ao menos fazê-lo ir embora, já que não conseguiria prendê-lo.

O duelo não durou e, enquanto o xerife sangrava no chão Pablito gritava a todos na cidade que era invencível, que era mais devastador que a própria morte e que a desafiava, pois se julgava imortal.

Diante da cena Carmelita correu para seu amado e chorou bastante, olhando com ódio para Pablito, que ainda comemorava seu ato sangrento. Ela então cantou uma canção indígena que havia aprendido com seus ancestrais da região. Tudo de repente escureceu e uma linda moça de negro apareceu, sorrindo para Carmelita.

Pablito se assustou com aquilo e atirou na moça. Ela simplesmente olhou para ele e disse que o desejo dele ia ser realizado, que tolo ele era. Disse que não iria jamais buscá-lo e um dia ele iria implorar pela sua presença.  Após a moça desaparecer, Pablito riu de tudo aquilo pois achava que tinha enganado a própria morte, mal sabendo as conseqüências daquela maldição.

Carmelita enterrou o corpo de seu amado e sua dor foi à mesma do povo da cidade. Os moradores então decidiram que, a partir daquele dia a cidade se chamaria Añoranza. Paplito seguiu para outras cidades, derramando o sangue de quem ele não gostava. A última notícia que foi ouvida é a de que ainda hoje ele vive com o corpo deteriorado e sem conseguir morrer. Quem passa pelo deserto de Tijuana pode ouvir seus gritos chamando pela morte, implorando que ela o leve.

José terminou a história dizendo que não deveríamos jamais desafiar ou brincar com ela pois, por ser mulher, era às vezes vingativa.

Agradecemos a José pela ajuda e antes de irmos embora. Rosa e Anita seguiram na frente enquanto eu fiquei observando aquele velho homem se afastar. E, apesar das meninas não terem acreditado na história, nunca mais brincamos no cemitério, logo crescemos e outras coisas nos chamaram atenção, mas confesso que, no fundo, eu sei que tudo foi verdade e que José era parente de Carmelita. Anos depois eu perguntei e ele confessou, mas isso já é outra história.

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3 Respostas to “Com a Pena e o Tinteiro”

  1. Neylinha 21/06/2011 às 16:36 #

    Conta bem interessante…

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