Appetizers – Cultura

3 ago

As Cidades de Chico Buarque

Em “As Cidades de Chico Buarque”, a jornalista Cristina de Almeida analisa os aspectos urbanos que emergem da obra do cantor carioca. O tema será debatido amanhã, no CCBNB

Os letreiros das lojas que encobrem a moça burguesa, “As Vitrines” que a veem passar, não perseguem nem vigiam o reles trabalhador da “Construção” civil, que empilha tijolos de prédios que não deverá habitar. É mais fácil que ele viva na periferia, na cidade desigual, iníqua e mal-agradecida de “Geni e o Zeppelin”. Ainda sim, ambos se encontrariam nas avenidas que separam espaços tão distintos, para ver a marcha alegre, a cidade enfeitada para ver “A Banda”. E pensariam em coro, ao ver o Sanatório Geral na subida do alto: tudo “Vai Passar”.

As cinco músicas de Chico Buarque de Hollanda citadas acima, que trazem no bojo a compreensão de algum aspecto da cidade, se tornaram objeto de estudo para a jornalista Cristina de Almeida Couto. A pesquisa, que a princípio foi seu trabalho de conclusão do curso de Comunicação Social em 2005, foi transformada em livro por sugestão de seu conterrâneo, o escritor Dimas Macedo, também de Lavras da Mangabeira.

Obra

Em “As Cidades de Chico Buarque”, Cristina analisa as cinco músicas, pensando sobretudo na disparidade dos lugares da cidade, no desenvolvimento desenfreado, nos contextos políticos e na sociedade de consumo. Segundo a autora, “as canções escolhidas para a análise versam sobre temas que se relacionam entre si, formando um elo de acontecimentos e consequências que se completam e revelam a realidade dos fatos que ocorreram na época em que foram lançadas, bem como os aspectos da cidade”.

O livro abre com uma breve descrição da trajetória de Chico Buarque, destacando-o como artista múltiplo: cantor, compositor, escritor e teatrólogo. Já neste primeiro capítulo, a jornalista comenta do gosto de Chico pelo espaço urbano, quando, ainda pequeno, desenhava suas cidades imaginárias.

Análise

Os capítulos posteriores vão se dedicar à análise das canções. “As Vitrines” (Almanaque, 1981) e “Construção” (Construção, 1971) servem ao debate sobre o consumo, o fetiche e a sedução. Aqui discutem-se os processos próprios da publicidade e de como a indústria do consumo “vigia” seus clientes, percebendo-se, por fim, que as vitrines olham os passantes tanto quanto o contrário.

A marginalidade e a cidade como sinônimo de trabalho são temas conseguidos do cruzamento de “Construção” com “Geni e o Zeppelin” (Ópera do Malandro, 1978). A primeira faixa, lançada em álbum homônimo, publiciza a condição dos trabalhadores que não possuirão o fruto de seu ofício. A segunda, trilha de um musical que estreou no ano do lançamento do disco, apresenta a sociedade do julgamento, do preconceito, da ironia e da ingratidão.

Política

As duas últimas canções relacionam-se aos contextos políticos. “A Banda” (Chico Buarque de Hollanda, 1966) e “Vai Passar” (Chico Buarque, 1984) discorrem com a sutileza ácida necessária ao momento sobre as transformações da cidade, ocorridas com a instituição da ditadura e, posteriormente, com a abertura política. A modernidade é recebida com nostalgia em “A Banda” e a liberdade com frenesi em “Vai Passar”.

“As Cidades de Chico Buarque” será apresentado nesta quinta-feira no programa “Troca de Ideias”, no Centro Cultural Banco do Nordeste. Além de Cristina, faz parte do debate Nelson Barros da Costa, professor-doutor em Linguística.

Música e urbanidade
As Cidades de Chico Buarque
Cristina de Almeida

2010
Imprece
93 páginas
R$ 20

Lançamento amanhã, às 18h30, no CCBNB (Rua Floriano Peixoto, 941 – Centro). Contato: (85) 3464.3108

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