Cultura de Bolso

20 ago

Trinta décadas após a morte de Glauber Rocha, a importância de sua obra permanece em destaque, graças aos anos de esforços para preservação de seu acervo

Daqui a dois dias completam-se 30 décadas de Brasil sem Glauber Rocha. Embora o impacto e a influência de sua obra permaneçam indeléveis na construção da cultura nacional, há que se lamentar a perda tão precoce (aos 42 anos de idade) de um dos realizadores mais polêmicos, pesquisados e influentes da cinematografia nacional. Amado, repudiado, Glauber jamais foi alvo de indiferença.

Integrante fundamental do Cinema Novo, movimento brasileiro surgido na década de 60, Glauber marcou época ao lado de nomes como Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade, Cacá Diegues, Paulo César Saraceni e Leon Hirszman. Nasceu em 1939, em Vitória da Conquista, sudoeste da Bahia, mas, ainda criança, mudou-se com a família para Salvador. Participou de programas de rádio, grupos de teatro e de cinema amadores, abandonou a faculdade de Direito e exerceu brevemente a carreira jornalística.

Concebeu obras paradigmáticas a exemplo de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), “Terra em Transe” (1967) e “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” (1969). Ao todo, foram 20 filmes, entre curtas e longas.

Transformação

Oriundo da insatisfação de jovens realizadores com o então cenário da produção cinematográfica brasileira – à época dominado por películas “hollywoodianescas” de produtoras como a paulista Vera Cruz e a carioca Atlântida (famosa pelas comédias carnavalescas) -, o Cinema Novo propunha uma transformação radical de estética e conteúdo, a partir da abordagem social mais direta do País.

A ideia era levar o cinema às ruas, ao encontro do povo. Filmagens fora dos estúdios, linguagem mais simplificada, orçamentos modestos e abordagem de temas relacionados às desigualdades sociais eram algumas das premissas sugeridas. Nesse sentido, o Cinema Novo inspira-se diretamente no Neo Realismo Italiano e sua sucedânea francesa, a Nouvelle Vague.

Em 1955, surgia “Rio 40 graus”, de Nelson Pereira, considerado o marco inicial do Cinema Novo. A película retrata o cotidiano de meninos moradores de favelas cariocas pelas ruas da cidade. A partir de 1960, o movimento rapidamente agrega artistas e intelectuais. Na Bahia, surgem filmes fundantes como “A Grande Feira” (1961), de Roberto Pires; “Bahia de Todos os Santos” (1960), de Trigueirinho Neto; e “Barravento” (1961), de Glauber Rocha.

No Rio, jovens ligados ao Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC-UNE) realizam o “Cinco vezes favela” (1962), filme com cinco diferentes histórias sobre moradores de áreas pobres da capital fluminense, dirigidos por Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman, Cacá Diegues, Miguel Borges e Marcos Farias.

Marco

Mas é em 1964 que o Cinema Novo dá um salto importante, rumo à projeção internacional, com o recebimento caloroso no Festival de Cannes dos filmes “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha, e “Vidas Secas”, de Nelson Pereira. Embora não tenham ganhado prêmios, os longas foram sensação entre público e crítica do festival.

A partir do mesmo ano, porém, com o advento do Regime Militar, falar sobre temas políticos e problemas sociais do País tornou-se tarefa complicada. Para driblar a censura, diretores e roteiristas passaram a recorrer cada vez mais a metáforas, frequentemente inacessíveis ao grande público. O resultado foram filmes mais herméticos, menos público, o encolhimento do movimento e a castração criativa de toda uma geração.

Ainda assim, Glauber alcança outro feito, ao lançar, em pleno 1967, “Terra em Transe”, ficção que revive, a partir de uma representação alegórica, o Golpe de Estado de 1964 no Brasil. Temas como o populismo latino-americano, o embate de forças políticas e as heranças coloniais brasileiras são abordados a partir do conflito interno do personagem principal, o poeta e jornalista Paulo Martins, em um país fictício da América Latina.

O filme, marcado por recursos inovadores à época, foi premiado nos festivais de Cannes, Locarno (Suíça) e Havana (Cuba). No Brasil, foi proibido pela ditadura militar.

Com “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” (1969), Glauber foi novamente agraciado em Cannes (Melhor Diretor), repetindo a façanha com o curta-metragem “Di Cavalcanti” (1977), que ganha Prêmio Especial. Nesse ínterim e nos anos que se seguiram, Glauber acumulou mais censuras, algumas premiações e trabalhos que dividiram a crítica.

Herança

O cineasta brasileiro deixou um rico acervo, preservado e difundido ao longo das últimas décadas pela instituição Tempo Glauber, por meio de patrocínios públicos e privados. Fundada em 1983, dois anos após a morte do diretor, é composta pelos sócios Lúcia Rocha (mãe de Glauber), Ana Lúcia (irmã) e Paloma Rocha (primeira filha).

Ao longo dos anos de 2005 e 2006, a Presidência da Republica e o Conselho Nacional de Arquivos (Conarq) decretaram o Acervo Tempo Glauber como Patrimônio Nacional. O projeto de restauração do acervo foi aceito pela Petrobras e iniciado em 2007.

Além da catalogação, o processo inclui a higienização e a reacomodação em câmara climatizada dos cem mil documentos que compõem o acervo – entre documentos, desenhos, roteiros inéditos, manuscritos, vídeos e fotos -, por meio da Associação dos Amigos do Tempo Glauber (AATG). Desses, 22 mil já se encontram digitalizados. O material é disponibilizado para consulta no local e pelo site http://www.tempoglauber.com.br.

Em parceria técnica com a Cinemateca Brasileira, o Centro Técnico do Audiovisual (CTAv) e a Paloma Cinematográfica, a instituição realizou a restauração de quatro longas-metragens do diretor, e produziu outros quatro documentários, que serviram como extras para os DVDs lançados como a Coleção Glauber Rocha. A segunda fase do projeto incluiu a restauração de “O Leão de Sete Cabeças”, para a qual estão previstos ainda “Cabeças Cortadas”, “Claro”, “Câncer” e “História do Brasil”.

Diário do Nordeste

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