ESTILO DE VIDA NERD

31 ago

Daytripper

(ou As Muitas Mortes de Brás)

A vida é feita de inúmeras escolhas e possibilidades, a cada minuto um leque de futuros surgem a nossa frente e a cada decisão eles se desintegram, deixando uma parte de nós para trás ou o todo mesmo deixa de existir, morre. Isso é o que descobre Brás Domingos, um brasileiro do sul do país, editor de obituário de um jornal, além de escritor nas horas vagas. Um homem sempre em busca de seu lugar na existência, um viajante.

Daytripper é a última grande obra dos famosos irmãos Gabriel Bá e Fábio Moon, e por ela acabaram de ganhar o Eisner 2011 de Melhor Minissérie, totalizando quatro Eisners em seus currículos. Quando comecei a escrever esse texto, fui motivado pela sensação forte de reflexão que a obra deixou em mim após lê-la.

A história gira em torno de Brás, um brasileiro de São Paulo, editor de obituário de um jornal, além de escritor nas horas vagas. A narração é extremamente sutil e evoca quase um olhar pessoal para os passos de um homem que busca um caminho para sua vida – e que tenta, enquanto escritor, fugir da sombra de seu pai. Um dos artifícios mais nobres que Moon e Bá utilizam, é o texto dos obituários. Cada passagem reflete os anseios da vida pessoal de Brás, levantando pequenos questionamentos ao longo da leitura. A metalinguagem torna possível a análise metafórica do título, passando a ideia de que o personagem principal, além de viajar fisicamente pelo país, faz uma excursão por entre a vida das pessoas do obituário, buscando talvez, mesmo que inconscientemente, alguma resposta para sua própria; ao mesmo tempo, leva o leitor em uma viagem por diferentes momentos de sua vida, permitindo uma análise mais profunda de seu ser. O nome não é por acaso, faz referência clara à obra de Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, não só pelo nome do protagonista, como também por elementos de roteiro.

Daytripper 2 Moon e Bá em Daytripper: A universalidade do povo brasileiro

As edições são nomeadas com números que correspondem à idade de Brás, onde certos acontecimentos relevantes de sua vida são mostrados nas páginas, permitindo ao leitor compor a personalidade do personagem aos poucos e, em um mesmo compasso, entender a mente do brasileiro em questão. A arte é simplesmente espetacular. Consegue passar com incrível precisão, as localidades ambientadas em um cenário tipicamente brasileiro. A arquitetura dos prédios nas ruas, as roupas dos personagens, os carros e o interior das casas… O ambiente como um todo fora moldado com uma qualidade artística impressionante, deixando explícito justamente, esse jeito brasileiro de viver. Há de mencionar as fantásticas cores de Dave Stewart, que utiliza em certas edições uma variedade de tons quentes para compor seus fundos, aparentando ser o calor pulsante de um país tropical como o Brasil envolvendo os personagens. Principalmente na segunda edição, que se passa na Bahia. Em um outro momento da narrativa, mais precisamente na edição quatro, Stewart utiliza uma paleta de azuis, roxos e verdes para compor situações um pouco mais sérias e melancólicas e tons de amarelo morno para os flashbacks. A composição de toda obra, seja em desenhos, roteiro e cores está singularmente harmoniosa.

Daytripper 3 Moon e Bá em Daytripper: A universalidade do povo brasileiro

O trabalho dos gêmeos ao longo das suas 10 edições é mais uma crônica sobre vida e morte, como a preocupação com esse último momento de nosso respirar pode nos atrapalhar de viver o presente e como essa derradeira etapa de nossa existência está tão presente em todos nossos momentos desde o nascimento até, bem, até a morte de fato. Afinal, cada instante pode ser o nosso último e, como dito no inicio desse texto, cada decisão nos muda, nos tranforma em outra pessoa e mata o Eu anterior.

Mas não só de morte fala Daytripper, mas também sobre relacionamentos familiares, e principalmente a tradicional difícil relação entre pais e filhos. Como muitas vezes buscamos ser o oposto do que nossos pais são e, assim, deixamos também de ver o que de bom podemos tirar da experiência e vivencia com eles e, muitas vezes, só percebemos isso depois que eles já não estão mais nesse plano físico.

Daytripper abre Moon e Bá em Daytripper: A universalidade do povo brasileiro

Daytripper foi lançada pelo selo VertigoDC Comics, onde conseguiu grande sucesso de vendas e o prêmio Eisner. No Brasil a editora Panini já anunciou suas intenções de publicá-la, e já espera-se por um encadernado dessa maravilhosa incursão dos gêmeos brasileiros pela metafísica, vivencia brasileira, e crônica da vida de uma pessoa que poderia ser eu, você ou qualquer um, e ai, pra mim, está o motivo do sucesso desse viajante, tanto geograficamente quanto existencialmente.

“A vida é como um livro, filho. E todo livro tem um fim. 

Não importa o quanto você gosta desse livro, 

você terá que chegar a última página e ele terá um fim.”

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