Com a Pena e o Tinteiro

2 set

Gosto de Café

Sabe aqueles dias que você não espera nada? Estava eu lendo em uma tarde como essa, tão abafada que de vez em quando eu me abanava com livro. Sentada à minha varanda, vez ou outra eu olhava de rabo de olho o movimento da rua, que estava calma e parada como o vento naquele dia. O tempo ia passando monótono e preguiçoso.

Foi quando de súbito, me assustei e sentir um frio na barriga quando ouvi meu nome, na verdade foi mais sua voz que me fez sentir essa sensação. Nem pude tirar os olhos do livro de tão assustada que fiquei meio que tentando me esconder também. Como tolos somos, você já tinha me visto, não tinha o que esconder.

Quando você repetiu meu nome, tive que atender mais por receio que outras pessoas pudessem ouvir você me chamar. Você entrou sorridente e foi logo se sentindo em casa, sentou onde antes eu estava, pediu água e eu cautelosamente fui buscar. Mesmo sorrindo para você, meu espírito estava inquieto, não conseguia ter pensamentos lógicos com sua presença naquele momento. Era como se tivéssemos fazendo algo indecente, imoral e de certa forma, estávamos.

Voltei com sua água, você bebeu rapidamente e percebi que estava ofegante pelo calor do dia. Agradeceu e sorriu para mim, retribui o sorriso mais por timidez. Começamos com conversas corriqueiras, conversas de comadres, meu coração foi abrandando mais, íamos seguindo por esse caminho, quando você segurou minha mão e olhou em meus olhos de uma forma tão penetrante que me senti desnuda. Minhas mãos gelaram e de tão nervosa, ficaram molhadas. Aquilo que duraram segundos para mim foi uma eternidade, não sabia o que fazer.

Daí você perguntou sem nenhum constrangimento se eu estava sozinha em casa. Seus olhos maliciosos já me diziam todo resto que você tinha em mente. Senti-me tão acuada que respondi sem pestanejar que não, mesmo sabendo que era mentira, tive tanto medo de alguém chegar ou de você entrar que desejava que fosse embora, mas também não queria pedir.

A sua presença naquela tarde me deixou feliz, surpresa, queria me atirar em seus braços, mas ao mesmo tempo me sentia desarmada, nossos encontros secretos não podiam ser expostos assim por um simples impulso de desejo.

Tentei em vão mudar o rumo da conversa, mas como sempre, você conseguiu dominar a situação e começou a me falar coisas que me deixaram ruborizada, no final fiquei sem palavras. Comecei a me sentir sufocada, suas palavras, seu olhar, precisava fazer algo. Desviei o olhar e procurei focar em um objeto, pus meus olhos em um gato que brincava no jardim.

Você continuava a falar e tão próximo que sentia seu hálito quente em meu ouvido. Tremi, queria me levantar e correr, me esconder de você. Meu coração estava acelerado. Suas mãos tocaram meu rosto que foram me virando para você lentamente, neste momento minha respiração parou e com ela o tempo, meus pensamentos ficaram tão confusos que eu me afastei.

Levantei-me e sorri amarelo, você meio que sem graça repetiu meu gesto e procurou ser direto e comentou que ia viajar e queria ficar com uma lembrança minha, disse lhe que ali era muito arriscado, então sem desistir você pediu para me ver à noite, lhe falei que não podia naquele dia. Ainda estava confusa, não conseguia raciocinar e vi decepção em seus olhos.

Estava louca que você fosse embora, mas não queria dizer. Sabia que você não desistia fácil e qualquer abertura poderia nos levar ao que você estava querendo e o que eu estava temendo. Só que antes que você pudesse insistir, seu telefone tocou, senti um alivio. Enquanto atendia, você me olhou triste e ao desligar se despediu. Acompanhei lhe até o portão e disse adeus. Entrei antes que pudesse lhe ver parti.

Sentei tão cansada que parecia que tinha corrido uma maratona. Quando meus pensamentos se organizaram e eu pude avaliar a situação, o que tinha ocorrido e nossas ações. Percebi que havia lhe negado um beijo, negado um beijo a nós. Senti-me tão arrependida que minha boca passou o resto do dia com gosto amargo de café sem açúcar.

Anúncios

2 Respostas to “Com a Pena e o Tinteiro”

  1. Karine Lopes 02/09/2011 às 16:59 #

    Eba! Obrigada Nattasha! Era causar algum sentimento que queria no leitor! 😀

  2. Tata 02/09/2011 às 16:11 #

    Adorei!!! Senti um aperto no peito . . 😀

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: