Ponto e Reticências

8 set

Afinal, o que pode ser a angústia?

Olá galera, estou de volta aqui ao Nativa para dar um fechamento ao post anterior cujo o assunto foi “A angústia de ser adolescente”, fechamento do texto escrito por mim mas não do assunto, porque este constitui-se inesgotável e quem se interessar pelo tema vai ter muito o que ler…

Nesse novo post resolvi falar sobre a angústia de forma geral e pra quem pensou que eu tinha alguma fórmula mágica para pôr fim a esse sentimento, sinto decepcioná-los, desangustiar é um treino constante na vida.

O ser humano se angustia porque sente desejo, sonha, sente prazer. Entender que sentimos angústia porque possuímos algo que pulsa em nós para vivermos além da sobrevivência é fácil. Difícil é entendermos o que torna a angústia insuportável, sem conseguir ser administrada.

Buscando esses entendimentos resolvi mostrar aqui resumidamente a compreensão de alguns filósofos existencialistas sobre o que angustia o homem em seu existir. O existencialista difere do filósofo tradicional e do homem comum na medida em que não acredita que possa existir vida sem sofrimento ou a felicidade eterna. Acredita que as agruras existenciais, dentre elas a angústia, a solidão, o tédio etc., são inerentes à existência humana e, sem elas não há realizações humanas.

O angustiar surgiria diante de uma situação real em que se precisa fazer escolhas e do futuro imprevisível das conseqüências destas escolhas. Ela é a ausência da certeza, do conhecimento e do controle sobre o futuro. Ela é expressão da fragilidade dos projetos do ser.

Para Sartre e Kierkgaard, a consciência dessa liberdade é a própria angústia, pois ao escolher o que quer ser, o homem torna-se ao mesmo tempo um legislador de si próprio e da humanidade inteira, sendo responsável pelas conseqüências de suas escolhas. É uma responsabilidade perante os outros homens (Sartre, 1978).

A angústia de ser, abordada por Kierkegaard, aparece quando percebe-se que a possibilidade do nada é tão real quanto a do ser (ambivalência). O homem não sabe de onde tudo se originou e nem como vai acabar, ele não pode ter certeza de nada, muito menos das conseqüências de suas escolhas, e a impossibilidade de prever e explicar os fatos o angustia.

Para Heidegger, o homem está-aí, é um ser lançado no mundo. O estranhamento das coisas, a ausência de familiaridade com o mundo, ou como prefere Heidegger, a “pré-sença” é a abertura para ter-se consciência desse mundo. Essa sensação que permeia o cotidiano e que apresenta ao homem sua situação fundamental de ser-para-morte, ou seja, de ser um projeto finito, vem acompanhada de dois sentimentos: a angústia e o temor (De Feijoo,2000). A consciência dessa finitude é que angustia o homem.

Todos querem livrar-se da dor, e a angústia dói. Atualmente vemos esta dor angustiada como uma patologia e não como uma disposição afetiva fundamental do ser humano como descrevem os filósofos existencialistas acima. Há uma evitação da angústia e encobrimento desta condição essencial da existência por meio de uma compulsão de controle e segurança. Muitos procuram receitas prontas e rápidas para solucionar o problema e se entregam ao uso indiscriminado de drogas legais e ilegais, a anestesia da droga pode livrar alguém da dor, mas não libertar a pessoa de uma prisão.

O modo de vida contemporâneo (consumista, imediatista e controlador) não consegue integrar adequadamente algumas das experiências mais fundamentais do existir, tais como a dor, o amor, a liberdade e a morte. Experiências angustiantes emergem de tudo isso podendo suscitar espaços para processos de singularização do indivíduo.

Deixar de compreender a si mesmo a partir de conceitos e interpretações públicas naturalizadas e permitir uma experiência própria do existir que te faça sentido, isto é “decidir-se por si mesmo”. Aquilo que somos está continuamente em jogo no tempo, com várias possibilidades que são imprevisíveis. Se vivermos baseados em referências prontas que anunciam o que somos e como devemos nos portar, tendemos ao fechamento e ao encobrimento de nossas possibilidades próprias e singulares. Devemos nos abrir a um vir a ser, nos apropriar das nossas escolhas e conseqüentemente nos singularizar, sem isso nos restringimos e caímos em sofrimento psíquico.

O apego gera o medo da perda de segurança, nos preocupamos em querer controlar o que estar por vir quando na verdade deveríamos era desconstruir as velhas referências e constituir novos modos de se relacionar consigo e com o mundo, “decidir-se por um vir a ser”. A vida é movimento, a natureza é cíclica, as mudanças fazem parte da vida, limitação e apego são imutabilidades que não cabem no existir.

Encerrando minha opinião a esse respeito vou finalizar o texto com uma citação de Sylvia Plath  em “A redoma de vidro”, um romance semi-autobiográfico que me toca profundamente:

FIGOS

“…Vi minha vida se desenrolar diante de mim como uma figueira de um conto que havia lido. Da ponta de cada ramo, um gordo figo roxo acenava e me seduzia com um futuro maravilhoso. Um figo significava um marido e um lar feliz com filhos, outro era uma poetisa famosa, outro uma professora, outro era Esther Greenwood, a surpreendente editora, outro era a Europa, a África e a América do Sul, outro Constantin e Sócrates e Átila, um bando de amantes com nomes esquisitos e profissões originais, outro ainda era uma campeã olímpica, e acima de todos esses figos havia muitos outros que eu não conseguia entender. Vi-me sentada sob essa figueira, morrendo de fome, só porque não conseguia decidir qual figo escolheria. Queria-os todos, e escolher um siginificava perder o resto. Incapaz de me decidir, os figos começavam a murchar e apodrecer, e um a um caiam no chão a meus pés…”

Até mais ver,

Por Neyla Moreira

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2 Respostas to “Ponto e Reticências”

  1. N(A)tiva 14/02/2012 às 21:06 #

    Fico muito contente que trabalho não só da gente mas também dos colaboradores são apreciados e principalmente reconhecido. Essa coluna foi criada para que vocês pudessem colaboradores pudessem ter espaço para compartilhar um pouco de se conhecimento conosco. Fico muito contente que esse post tenha sido bastante lido, 141 visualizações. Valeu publico do Nativa e parabéns Neyla pelo texto.

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