Cultura de Bolso

29 fev

A linguagem do e-mail: autoria, autoestima e criatividade


Atualmente, como o e-mail chega ao leitor e como este o recebe: responde a ele, encaminha-o ou deleta-o?

Entre os modelos de escrita organizacional, temos o correio eletrônico (e-mail), que visa a uma comunicação eficiente e eficaz, buscando atender à necessidade de prontidão no entendimento e na resposta ao que é comunicado.

As empresas usam vários gêneros em suas comunicações, tais como o ofício, a carta comercial, o memorando e a circular, que hoje são enviados, de forma digital, também por e-mail, por ser mais simples, objetivo e direto.


Tanto no ambiente formal como nas mensagens trocadas informalmente, está o que se convencionou chamar de “netiqueta”, um conjunto de recomendações e normas de conduta para evitar mal-entendidos em comunicações via internet; a palavra é decorrente da fusão de duas outras: o termo inglês net (que significa “rede”) e o termo “etiqueta” (conjunto de normas de condutas sociais).

Luis Fernando Verissimo
Provavelmente o campeão em autoria atribuída em e-mails, como os famosos Quase e A Pessoa Errada, que não são do escritor gaúcho. Verissimo é um bom exemplo de como a autoria atribuída pode até mesmo ignorar o estilo do autor a que os textos são associados: famoso por sua irreverência e pelas crônicas humorísticas, é difícil imaginar Verissimo escrevendo coisas como “O que é certo mesmo é que vamos viver cada momento, cada segundo amando sorrindo, chorando, emocionando, pensando, agindo, querendo, conseguindo” (trecho de A Pessoa Errada, que aparece, em diversos sites, assinado por Verissimo).

Vamos examinar um pouco as características dos e-mails trocados informalmente entre amigos. Atualmente as pessoas trocam e-mails com os mais conhecidos e procuram passar-lhes mensagens tão diversas quanto possível, desde uma simples receita até o mais profundo texto – científico, jornalístico ou literário. Alguns valores, no entanto, se perdem ou se misturam nessa troca.

AUTORIA
O princípio de autoria está presente em todas as práticas de linguagem, e não somente em textos escritos institucionalizados.

Nem sempre os textos – enviados por e-mail e normalmente na forma de apresentação de slides – trazem o nome do autor (às vezes, autor desconhecido). Na maior parte dos casos, os textos dos slides são nomeados com a autoria de Luis Fernando Verissimo, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Mário Quintana – famosos poetas e prosadores luso-brasileiros; são escritos, entretanto, por pessoas anônimas, e muitas vezes o estilo dos textos enviados por e-mail nemsequer se parece com o consagrado pelos autores a que são atribuídos.

Para Foucault, o nome de autor afeta a prática do discurso e serve como princípio de classificação e agrupamento. Na sociedade em que vivemos, o fato de atribuir um nome de autor a um texto afeta sua forma de circulação (sua legitimidade, sua validade, seu valor relativo). Contudo, se fizermos uma análise mais acurada do discurso, perceberemos que, na maior parte deles, não há veracidade da autoria citada.

Foucaul
“Essa noção do autor constitui o momento crucial da individualização na história das ideias, dos conhecimentos, das literaturas, e também na história da filosofia e das ciências. Mesmo hoje, quando se faz a história de um conceito, de um gênero literário ou de um tipo de filosofia, acredito que não se deixa de considerar tais unidades como escansões relativamente fracas, secundárias e sobrepostas em relação à primeira unidade, sólida e fundamental, que é a do autor e da obra.” Michel Foucault, filósofo e professor francês

“Se você tivesse acreditado na minha brincadeira de dizer verdades, teria ouvido verdades que teimo em dizer brincando. Falei muitas vezes como palhaço, mas nunca desacreditei da seriedade da plateia que sorria.” (atribuída a Charlie Chaplin)

“Um dia, quando olhares para trás, verás que os dias mais belos 15 foram aqueles em que lutaste.” (atribuída a Sigmund Freud)

Inversamente, presenciamos casos em que as pessoas gostam de um determinado texto, apagam o nome do autor e começam a encaminhá-lo como se fosse de sua autoria, caracterizando falta de ética.

Podemos afirmar que o princípio de autoria está presente em todas as práticas de linguagem e não somente em textos escritos institucionalizados.

Fernando Pessoa
Fernando Pessoa é, talvez, o único escritor da leva com a sorte de ser mais conhecido por seus poemas do que pelo que lhe é falsamente atribuído: versos de Mensagem (como os famosos “Tudo vale a pena / se alma não é pequena”) e Autopsicografia (“O poeta é um fingidor…”), legítimos do escritor português, são de longe os mais repassados. O caso da autoria, em Fernando Pessoa, é ainda mais peculiar, no entanto: tratando-se do único caso mundial de heteronomínia, isto é, um escritor escrever sob diferentes nomes (e não pseudônimos, pois seu estilo de escrita e inspirações mudam radicalmente de um para o outro), é frequente que poemas escritos pelos heterônimos de Fernando Pessoa sejam erroneamente atribuídos ao poeta; ainda que sejam escritos, é claro, pela mesma mão. O famoso Tabacaria (“Não sou nada / nunca serei nada…”), por exemplo, foi escrito por seu heterônimo Álvaro de Campos.

AUTOESTIMA 
Você se sente solitário? Apresenta algum tipo de depressão? Está com alguma dificuldade de relacionamento? As dívidas têm atormentado? Está distanciado de alguma religião? Não há motivos para se preocupar, pois o e-mail resolverá todos os seus problemas. Como num passe de mágica, a varinha de condão acabará com eles, em poucos minutos ou horas. Em uma apresentação bastante retransmitida por e-mail e intitulada Cápsula da felicidade, lemos este provérbio oriental:

“Um coração alegre faz tão bem quanto um remédio!”

Frases como esta procuram elevar a autoestima do leitor, mas normalmente são amplamente vagas e imprecisas.

A amizade é um dos temas mais explorados nas mensagens, uma vez que se passam frases boas e positivas aos verdadeiros amigos, ou, por ironia, até para os inimigos:

“Um amigo nunca está mais distante do que o alcance de uma necessidade, torcendo por você, intervindo em seu favor e esperando você de braços abertos, abençoando sua vida!”

Como se um amigo pudesse intervir sempre em nosso favor e tivesse o poder de abençoar tudo e todos!

Numa famosa mensagem intitulada Dois cavalos, lemos:

“Bendito seja Deus que nos deu amigos e flores e fez a amizade mais bela que os jardins”.

De forma geral, são mensagens que procuram aumentar a autoestima do leitor, trazendo conteúdos que tentam consolar, confortar e estimular as pessoas, fazendo-as refletir sobre a vida e sobre os seus problemas pessoais.

Carlos Drummond de Andrade
A vastíssima obra do poeta mineiro pode ser a culpada pelos textos que circulam atribuídos a Carlos Drummond de Andrade. O escritor, nascido em 1902 e falecido em 1987, destacou-se inicialmente por seus poemas humorísticos e mais tarde pelo sentimento e subjetividade de sua escrita. Ainda assim, seu estilo, que pode ser observado na obra-prima A Rosa do Povo, seu maior livro de poemas e escrito durante a Segunda Guerra Mundial, em pouco lembra as mensagens românticas largamente difundidas em seu nome.

LINGUAGEM INADEQUADA
Em muitos e-mails – principalmente nos que trazem “autoria desconhecida” – percebemos uma linguagem repleta de incorreções de grafia, acentuação gráfica, sintaxe (concordância, regência e colocação pronominal) e outros aspectos gramaticais, pressupondo, talvez, o desconhecimento da norma culta padrão da língua portuguesa.

Lemos num e-mail intitulado A Paz:

“A paz que trago hoje em meu peito é diferente da paz que eu sonhei um dia”.

Acontece que o verbo sonhar é transitivo indireto e rege preposição com:

“…é diferente da paz com que eu sonhei um dia”.

Outra incorreção de regência verbal:

“Prefiro receber uma rosa e uma palavra amiga de um(a) amigo(a) enquanto estou neste mundo do que um caminhão de coroas de flores quando eu me for”.

O verbo preferir é transitivo direto e indireto e rege a preposição a: “Prefiro receber uma rosa… a um caminhão de coroas de flores…”.

Estes são alguns erros frequentemente percebidos nesse veículo, em que a incorreção gramatical não é tão condenada quanto, por exemplo, numa comunicação impressa.

AS MENSAGENS NUMA APRESENTAÇÃO
O que não falta nesses e-mails é a criatividade! Neles imperam a formatação benfeita e um fundo musical apropriado, com fotos e conteúdos que deixam boquiaberto o leitor. Explora-se, por exemplo, a natureza – principalmente a brasileira -, com a fauna e a flora riquíssimas: paisagens deslumbrantes, com rios e flores coloridos, animais conhecidos ou não… Digita-se um nome na tela e, como por encanto, ele aparece escrito na neve. Magia ou encantamento?

O humor também é bastante frequente nas mensagens, com brincadeiras e anedotas que tiram o leitor de seus afazeres diários e o fazem sonhar por alguns momentos: Em Praia (sem autor) lê-se:

“A gente abre esteira velha, com cheiro de velório de bode, bota o chapéu, os óculos escuros e puxa um ronco bacaninha”.

Mário Quintana
Como o poeta é conhecido inicialmente por seus poemas curtos (a exemplo do inesquecível Poeminha do contra: “Todos estes que aí estão / Atravancando meu caminho / Eles passarão / E eu passarinho!”), é difícil identificar, imediatamente, os textos erroneamente ligados a Mário Quintana. No entanto, o estilo do escritor é profundamente irônico e satírico, destacando-o em sua época e atraindo as atenções e elogios de Cecília Meireles, Drummond, Vinícius de Moraes e Manuel Bandeira.

As mensagens belas e positivas também são sempre bem-vindas! Um bom exemplo é “A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso cante, chore, dance e viva intensamente antes que a cortina se feche”, atribuída a Arnaldo Jabor, outro autor cujo nome aparece muito em textos enviados por e-mail, cuja autoria é duvidosa.

Difícil esquecer as correntes. O leitor, ao se ver diante de uma, fica numa sinuca: ou ele teme o teor da mensagem e a encaminha a sete, dez ou 20 pessoas (aguardando, sem hesitação, que a promessa se manifeste), ou a deleta, simplesmente por ter fé e não acreditar nos dizeres nem temer os impropérios daquela mensagem. Algumas correntes, no entanto, são menos inocentes do que outras: muitas são esquemas para pegar mais e-mails para cadastrar em sites de propaganda.

Há uma variedade muito grande de mensagens: as que tratam de amizade, da natureza – jardins e paisagens belíssimos -, as que trazem telas de famosos pintores, pinturas em três dimensões, alguns trabalhos com troncos de árvore, enfim, uma gama enorme que traz lenitivo às pessoas que não têm uma companhia constante e que sabem que há sempre alguém que se lembra dos verdadeiros amigos.

Revista Língua Portuguesa por Luiz Roberto Wagner e Djenane Sichieri Wagner Cunha Edição 34

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