Ponto e Reticências

8 mar

E hoje é o dia internacional da Mulher! Em mim fica a necessidade-urgência de falar alguma coisa, um tiquinho que seja a esse respeito.

Sou mulher, e desde menina quando chegava essa data eu ficava  com meus olhinhos brilhando; eu sabia que um dia iria. Eu via minha mãe e minhas tias recebendo rosas e abraços e até algum falar ditas diretamente para elas. Considerava isto maravilhoso.

Quando eu cresci percebi o que elas sentiam.

A geração de mamãe é de mulheres que se casaram e colocaram de lado a sua vida social, afetiva em troca de cuidar de filhos e cuidar do marido. Trezentos e sessenta e cinco dias elas ficavam pensando: o que vou fazer no almoço, preciso engomar a farda do trabalho, preciso lavar o uniforme dos meninos… E aí ia se indo! A todos elas davam o cuidado merecido.

Quando chegava esse bendito dia, lá vinha meu pai com cara de ‘homem-tacho’ dá um beijo no seu rosto, trazendo a feira da semana e botando na mesa umas lingüiças pra mulher fazer o tira-gosto. Nunca vi amor entre meu pai e minha mãe, com eles a relação sempre foi de ‘trabalho’. A casa, a comida, as roupas pareciam muito mais um salário do que propriamente as coisas de minha mãe. Minha mãe, sempre neste bendito dia, ela não se arrumava, passava por gosto em permanecer do jeito que ela estava, do jeito que ela dizia como era… Minha mãe sempre buscou a invisibilidade. Os homens de minha família são todos  sombras.  Ela dizia que merecia muito mais, sempre mereceu muito mais, que o dia de agradecer, de comemorar não é só um e nem é fixado no calendário, que perdemos o manejo de ter gratidão e amor por sermos mulheres e sermos homens, e que essa tal complementaridade dos sexos está sendo deturpada, que é preferível que não me vejam nesse dia do que me vejam e não saibam o que fazer, e pra variar, minha mãe não gosta de ramalhetes, esse lance de muitas rosas juntas com cheiro de bem cuidadas e bem preservadas… Dizer que as rosas representavam as mulheres, a representava? Ela se injuriava por completo!

Minha mãe dizia que preferia ser só, que a vida dela deveria ser outra, que ela deveria ter fugido com o circo… Acredito que minha mãe, de todo, não se arrepende do que ela fez da vida dela e o que ela fez de si também…  Acredito que ela queria que tivessem ensinado-a a como manter as asas sempre grandes e coloridas para voar quando quisesse… Minha mãe deveria ter entendido que não tem como permanecer numa relação por causa do outro; a vontade de permanência tem que ser juntos!  Minha mãe nem sabe disso, mas carrego dela muito em mim. Também não gosto de ramalhetes. Também acho forçação de barra todo, em todos os cantos, rede social-televisão-internet, falar das mulheres e não termos essa prática de falar de mulheres dentro de casa.

Por Mauri Moreira

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