Cultura de Bolso

24 abr

Colorindo novos mundos

Curta-metragem ‘Fantastic Flying Books’ é uma ótima ferramenta para estimular jovens a se interessarem pela leitura, escrita e História. Animação narra a trajetória de um homem que vê seu mundo de livros e palavras ser levado por um furacão

Contemplemos a geração Z: crianças que possuem uma enorme facilidade com as novas tecnologias – cada vez mais velozes. Classificamos como membros desta geração, todos os nascidos a partir de 1993, na sociedade capitalista Ocidental –pessoas que vieram ao mundo já inseridas no contexto da globalização e da internet. Antes dela, estudiosos da Sociologia jáhaviam classificado outras, como a primeira de todas – a dos Baby Boomers, uma denominação usada para chamar os nascidos imediatamente após a Segunda Guerra, quando a taxa de mortalidade estacionou e a de natalidade aumentou bastante, na euforia dos tempos de paz.

Voltando aos jovens do pós-93, ou nativos digitais, é inegável admitir que eles tenham uma relação diferenciada com a tecnologia daquela vivenciada por seus pais e avós. A internet é cada vez mais rápida, os computadores são cada vez mais potentes, alguns aparelhos permitem que ao toque de um dedo um mundo se desvele. Não há tempo para meditar. Estamos diante da geração do “agora”e do “mais rápido”. Para grande parte destes jovens, todo e qualquer conhecimento que requeira deles longos caminhos e que não lhes forneça respostas imediatas corre o risco de perder com facilidade o sabor.

O conhecimento histórico, por exemplo, tornou-se, em muitos casos, enfadonho. Talvez porque seja transmitido em uma linguagem tão distinta da realidade destes jovens que muitas vezes fica complicado para que eles lidem com facilidade com dois ritmos divergentes.

Recentemente, revelou-se para mim uma possibilidade de encontro entre os ritmos, a partir justamente do cruzamento entre cinema e outras tecnologias, como aplicativos para tabuletas eletrônicas (ou tablets).

O mundo dos livros

Um exemplo disso é o belíssimo  The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore (Os fantásticos livros voadores do Sr. Morris) de William Joyce, ganhador do Oscar em 2012 de melhor curta-metragem de animação. Bem como um desdobramento do curta, o livro interativo – distribuído em forma de aplicativo para iPad–  mescla o filme com texto digital, animações diversas, atividades deliciosas e um desenho primoroso.

A narrativa de Flying Books começa com o senhor Morris Lessmore sentado na varanda de um hotel, imerso em uma pequena biblioteca e escrevendo um livro, sobre sua própria história. De repente, um furacão o atinge – não só a ele, mas a toda a cidade. E os ventos levam embora seu mundo familiar, fazendo com que ele fique completamente destruído e sem cor. Até mesmo as palavras de seu livro vão embora no vendaval.

Sem saber o que fazer ou por onde começar, Morris caminha com calma e, surpreendentemente, conhece outros livros, os livros voadores. Rapidamente, uma destas obras se oferece amavelmente para acompanhá-lo: Humpty Dumpty, um famoso personagem da literatura fictícia. Uma vez que decide seguir o livro, o jovem senhor encontra uma espécie de ninho para aqueles seres estranhos e, lá, descobre um novo mundo colorido. Volta a escrever sua biografia.

A sensibilidade do diretor está expressa nos detalhes da animação esplendorosa. Para além disso, o filme não tem falas, o que estimula a criatividade, sobretudo com a trilha sonora delicadamente encaixada em cada pequeno momento da narrativa. A sutileza das cores é também outra estratégia do autor: pessoas ganham tonalidades quando entram em contato com os livros que Lessmore lhes fornece. E, no final de sua jornada, quando parte para seu próprio mundo, o protagonista deixa um presente aos livros voadores: sua própria história.

O livro-aplicativo, derivado do filme e escrito e produzido pelo mesmo diretor, convida as crianças ao mundo eletrônico desacelerado. Cada página tem uma surpresa, um pequeno detalhe ou uma atividade mais demorada, dois ritmos que se encontram. Por meio do aplicativo, o filme se torna uma porta de entrada para outro mundo. Em menos de vinte minutos, o curta convida as crianças para uma jornada de leitura e de autoria de suas próprias histórias, atingindo com maior alcance as crianças da geração Z, até mesmo aquelas que não se interessam muito por leitura.

História e novas tecnologias

Nós, professores de história, não podemos exigir de nossas crianças ou de nossos alunos que sejam pequenos historiadores, mas podemos sim convidá-los a desacelerar esse ritmo frenético das novas tecnologias e devemos incentivá-los para que sejam autores de suas próprias leituras de mundo, como disse em uma conferência em 2009 o professor e historiador Ilmar Rohloff de Mattos. Podemos usar toda essa curiosidade para que elas desejem ser autônomas em sua escrita, não para que sejam renomados artistas, mas, sobretudo para que desenvolvam um pensamento crítico próprio, para que sejam seletivas e saibam ser seletivas. Acredito que este livro-filme-aplicativo e outros como ele, podem se transformar em ferramentas incríveis para convidar crianças a adentrarem o mundo da leitura e da escrita – duas habilidades fundamentais para um professor de história.

O filme é um hino de amor aos livros, à leitura e à jornada particular de cada indivíduo. É um belo casamento entre ritmos, temporalidades, e saberes. Um amor pelo antigo hábito de ler expresso dentro de uma das mais modernas tecnologias atuais. A escritora Ana Maria Machado,  ao descrever suas experiências como professora de alfabetização de jovens e adultos em seu livro Contracorrente, conversas sobre política, lembrou de uma fórmula expressa por um educador italiano chamado Rodari e o parafraseou dizendo que “é indispensável que todos façam uso da palavra e tenham acesso a todos os seus usos, não para que todos sejam artistas, mas para que ninguém seja escravo.”

Sei que estamos ainda muito longe de uma democratização destas tecnologias, mas acredito que, como professores e historiadores, não é possível desperdiçar nenhuma ferramenta que possa nos ajudar a revelar para nossas crianças novas possibilidades de leitura para o mundo.

Revista de História Por Agnes Alencar

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