Ponto e Reticências

8 maio
Ela não dava a mínima para aquelas pessoas que caminhavam pelo calçadão, mas as observava quase concentrada, estava estranhamente atraída pelos passos, expressões e cores. Levantou um pouco a cabeça e pôs-se a vislumbrar o horizonte, sentiu a brisa, inalou a maresia. Na varanda daquele hotel cinco estrelas à beira mar distante de seu país, Lucy se sentiu subitamente angustiada. Viajara com seus pais para aquele país de terceiro mundo e não se sentia bem, não por ser um país subdesenvolvido, mas por sentir uma vacuidade sem precedentes, como um copo vazio, sem chão, uma antiguidade inútil sendo jogada fora. Tinha acabado de completar 15 anos de idade e aquela viajem à América do Sul era seu presente que naquele momento ela desejou com todas as forças ter recusado dias antes. Mas presente não se recusa.
Ao cansar da varanda e das expressões forçadas e perdidas das pessoas no calçadão, Lucy foi até a geladeira e ao abrir a porta constatou com certa frustração que não tinha nada ali que lhe consolaria. Olhou em volta e viu uma garrafa de vodca pela metade, ela não era de beber, apesar de seu País ser considerado por muitos o País da cerveja. A menina nunca tinha consumido vodca, mas sabia que tinha um gosto horrível e mesmo assim, por curiosidade ou por tédio, pegou a garrafa, abriu a porta da geladeira novamente e catou uma lata de refrigerante. Como uma exímia pinguça, misturou as bebidas de modo a deixar uma quantidade maior de refrigerante que vodca. No fim, não achou tão ruim assim e continuou bebendo. A bebida que ao passar por sua garganta lhe dava uma sensação de queimadeira instantânea como se sua garganta fosse inflamável, após o quarto copo começou a fazer efeito. Tudo girava, a visão estava embaçada e por um momento Lucy pareceu não saber onde estava. A garota só parou de beber quando a garrafa de vodca esvaziou, então se pôs a caminhar aos tropeços até a porta do quarto, seus pais tinham descido para jantar no restaurante do hotel após Lucy ter recusado o convite a acompanhá-los.
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A menina rodou a maçaneta com dificuldade, se viu deixando o quarto para trás e cambaleando ao caminhar pelo corredor silencioso e bem iluminado do andar que se encontrava. Ao percorrê-lo deu de cara com um elevador com suas portas metálicas quase espelhadas que refletiam seu belo rosto, mas o efeito da bebida em seu sangue a privava deste tipo de sensibilidade, a porta se abriu, ela apertara o botão vermelho de chamar o elevador sem querer, e sem querer entrou porta a dentro. Alguns segundos depois a porta se abriu novamente e como um robô controlado por alguém ou como um conjunto de pixels convergidos naquele corpo, parecia ser um personagem de algum jogo de vídeo game guiada por um jogador que não sabia para onde ir e seguia errante pelos cenários a fim de encontrar na sorte a saída, um amparo. Assim seguiu pelo saguão do hotel, passou pela recepção e quando se deu conta já se encontrava na beira da avenida que a separava do calçadão, que por sua vez encontrava-se à beira do mar.
O sinal vermelho do semáforo parecia ter se materializado numa sombra invisível aos demais que a empurrava em direção ao calçadão, por um momento ela acreditou ter mesmo visto e sentido uma sombra. Atravessou a avenida e sentiu um vento tropical quase frio que lhe arrepiou a pele, arriscou a olhar as faces das pessoas que há pouco tempo atrás eram observadas lá da varanda por ela. Sentiu-se muito diferente de todo mundo e na verdade, ela era. Seu cabelo demasiado louro, quase dourado, sua pele branca quase como as partes mais claras da lua cheia que iluminava a noite e seus olhos azuis e grandes a diferenciavam daquela gente mestiça, quase feias, quase lindas. Por um momento achou que todos a observavam ao vê-la caminhando com certa dificuldade, no entanto, depois de um tempo sentia-se um ser invisível a olho nu, um fantasma. Seguiu caminhando sem rumo, o calçadão iluminado e cheio de pessoas foi dando lugar a um caminho quase deserto e cada vez menos iluminado. O sentimento angustiante que a levou a geladeira, a beber vodca, a sair do hotel e àquele lugar, tinha sumido – talvez pelo efeito da bebida. Perguntava-se mentalmente se era aquele sentimento de esquecimento e de fuga que os adultos buscavam na bebida alcoólica.
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Finalmente olhou para o lado e não sabia como conseguira não escutar o barulho das ondas, por um momento se impressionou com a imensidão e penumbra. Já não via mais pessoas caminhando naquela parte remota e pouco iluminada da orla, foi quando se deu conta que estava literalmente perdida. Uma faixa de areia extraordinariamente branca separava Lucy do mar, ela se pôs a caminhar em direção as ondas, passos pesados, quase lúcidos, quase embriagados. De repente um turbilhão de pensamentos a fez sentir uma dor de cabeça súbita que a deixou ainda mais tonta, quase tombou na areia. Não sabia o que estava fazendo, não sabia o que iria fazer e como uma manifestação da exaustão que sentia, deitou-se de costas na areia. Algumas ondas chegavam a tocar seus pés, a lua a encarava com o seu único e gigante olho, alguns minutos depois pareceu já não sentir o efeito da vodca, parecia estar mais lúcida que nunca, no entanto, a angustia que a fez chegar naquele lugar voltara. Era considerada muito sábia para sua idade, mas naquele momento ela preferiria um abraço, um beijo, mesmo que significasse ter de ser e se sentir ignorante. Ela queria forças, um amparo, uma voz, mãos e quando finalmente resolveu se levantar e voltar para o hotel notou que estava completamente perdida.
Por Perpetuadores
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