Cultura de Bolso

27 nov

Estava lendo meus Twitters quando me deparei com essa matéria que me chamou atenção sobre Os Jogos Vorazes que saiu na Revista História, uma visão bem diferente do que eu já tinha lido sobre, achei bastante interessante.

Apenas um tom de cinza

Primeiro filme da trilogia ‘Jogos Vorazes’ aparece como caricatura da sociedade contemporânea mesmo com todo o apelo comercial

Realidades futuristas distópicas são frequentemente criadas como sátiras ou críticas sociais. Ao criar um panorama assustador do futuro, as distopias pretendem expor um sistema político atual fragilizado e uma sociedade contemporânea altamente corruptível.

Vistas por muitos como uma espécie de “aviso a ser levado a sério”, as anti-utopias fazem sucesso quando chegam ao cinema. Entre as décadas de 1950 e 1980, por exemplo, enquanto o mundo vivia as tensões geradas pela Guerra Fria, filmes como A Guerra dos Mundos (1953)O Dia em que a Terra Parou (1951) e Vampiros de Almas (1956), substituíram, nas telonas, a ameaça comunista por alienígenas. Este último, ainda que sutilmente, era uma crítica ao Macarthismo e sua “caça às bruxas”.

Jogos Vorazes segue caminho semelhante. Trazendo uma heroína mulher no centro da trama – em contrapartida ao festival de damas indefesas que a cultura pop enaltece hoje em dia, com seus ridículos tons de cinza –, o blockbuster pode ser encarado como uma caricatura social do que vivemos hoje. O consumismo exacerbado, as desigualdades sociais, a mídia no centro das relações de poder entre governantes e governados, a manipulação descarada e descabida das massas… Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

A realidade distópica

Em um futuro que não se sabe ao certo quão distante está, doze paupérrimos distritos vivem sob a constante vigilância de uma tecnológica e vistosa metrópole. De certo, tem-se apenas o fim declarado dos Estados Unidos da América – tal como conhecemos hoje – e o surgimento de uma nova nação chamada Panem. A 74 anos de onde a história começa a ser narrada, uma terrível guerra nuclear foi responsável pela total destruição de um 13º distrito. Mais distante, porém mais desenvolvido e independente, o famigerado Distrito 13 deu início a uma rebelião civil contra a Capital. Agora, como um lembrete de sua força irrestrita e “benevolência” para com os distritos sobreviventes, a Capital realiza os Jogos Vorazes. Anualmente, dois tributos de cada região são levados para competir até a morte. Até que reste apenas um vitorioso, em uma arena super-televisionada. “E que a sorte esteja sempre a seu favor”.

Baseado no primeiro livro da trilogia homônima criada pela americana Suzanne Collins, Jogos Vorazes acompanha a trajetória de Katniss Everdeen (Jannifer Lawrence), uma garota de 16 anos, moradora do longínquo Distrito 12. Órfã de pai, Katniss teve que aprender a se virar desde muito cedo. Não apenas para sobreviver por conta própria, mas para lidar com uma mãe que se entregou à depressão – após a morte prematura do marido nas minas de carvão, a serviço da Capital – e uma irmã anos mais nova. Acompanhada de perto pelo melhor amigo Gale (Liam Hemsworth), Katniss desafia as rígidas leis da Capital para cumprir a promessa pessoal de manter as duas vivas e bem alimentadas. Sai para caçar na floresta às escondidas e frequenta o Prego, o mercado ilegal do 12.

Entre a relutância em demonstrar fragilidade e a determinação escancarada da protagonista, o diretor Gary Ross (Seabiscuit) parece ter encontrado em Jannifer Lawrence o ponto de equilíbrio perfeito para a adaptação. A jovem de 21 anos, que não é uma veterana de Hollywood, mas já foi consagrada com uma indicação ao Oscar de melhor atriz por sua atuação em Inverno da Alma (2010), encarou o papel com tanta seriedade que não restam dúvidas ao espectador. A certeza de quem é Katniss Everdeen, de onde ela veio e a que veio, o acompanha do início ao fim.

O foco na heroína é dividido em três atos, que acompanham não apenas a evolução da trama, mas o desenrolar da 74ª edição dos Jogos Vorazes e o amadurecimento psicológico da personagem. A primeira vez em que as atenções fixam-se em Katniss é quando, em ato de total desespero e desamparo, ela se oferece como tributo na colheita do 12, que acabara de sortear o nome de sua irmãzinha. A colheita é o ápice das festividades que antecedem os Jogos. É quando, televisionados pela Capital, os distritos sorteiam um casal de tributos que enfrentará outros 22 jovens numa arena especialmente montada para ser palco de um massacre.

Ao inesperado, segue o completo silêncio. Ao invés de aplausos, apenas um gesto. A multidão do 12, em “uníssono”, toca os lábios com os três dedos médios, para em seguida estendê-los à Katniss, em sinal de pesar e despedida. Em cenas como esta, percebe-se o acerto de T-Bone Burnett e James Newton Howard com a trilha sonora. A carga dramática é enaltecida pela total ausência de sons, em contraponto às melodias que se projetam sutilmente em cenas de transição.

Neste primeiro momento, também somos apresentados a Peeta (Josh Hutcherson), o tributo masculino do Distrito 12 e aquele que será, pelo resto da trama, o principal ponto de apoio da personagem de Lawrence.

Longe de casa

A transição entre o tom acinzentado de miséria impregnado nas cenas iniciais que se passam no Distrito 12 e a ambientação da colorida e afortunada Capital – com suas calçadas de ladrilho cor-de-rosa e pessoas bizarras, artificialmente modificadas, que formam o público consumidor dos Jogos Vorazes – representa bem o choque cultural vivido pelos personagens ao desembarcarem na estação de trem. O misto de curiosidade e sensação de não pertencimento estampados nos rostos de Peeta e Katniss.

Entre os treinamentos com o alcoólatra, e único ex-vitorioso do 12, Haymitch (Woody Harrelson) e os preparativos com a neurótica e chamativa Effie Trinket (Elizabeth Banks). Entre entrevistas com o mestre de cerimônia Ceasar Flickerman (Stanley Tucci) e sessões de embelezamento com o estilista Cinna (Lenny Kravitz), um elenco de peso, escolhido a dedo, vai sendo apresentado.

Mas é dentro da arena que as ações de Katniss – e a belíssima atuação de Lawrence – a transformam na protagonista que estava destinada a ser desde o início. Isolada dos outros participantes e vendo seu companheiro de Distrito 12, Peeta, se aliar a um grupo de carreiristas – treinados desde pequenos por seus governantes para saírem vitoriosos em praticamente todas as edições dos Jogos –, Katniss luta para sobreviver e se esforça para passar despercebida. É surpreendida quando Rue (Amandla Stenberg) cruza seu caminho. A menina do Distrito 11 é a mais jovem competidora desta edição e a faz lembrar-se de sua irmã.

A introdução de Rue na trama é a preparação para o segundo grande ato da heroína. Após a morte sangrenta da pequena aliada e ciente de que está sendo transmitida, ao vivo, para toda a nação, Katniss repete o gesto de solidariedade vivenciado em seu próprio distrito durante a colheita. Desrespeitando todas as regras não pronunciadas dos idealizadores dos Jogos, ela toca os lábios com os três dedos médios e os estende para as câmeras, comunicando-se diretamente com o público. A sensação de que Katniss passa a sentir o peso da arena à sua volta depois disso é constante. E enquanto sua jornada no “Big Brother da morte” continua “às cegas”, cenas de revoltas acontecendo fora dela são mescladas. Inconsciente ou consciente de seus atos, Katniss se transforma no símbolo da resistência contra a tirania da Capital.

Esperança demais é crime

Numa das cenas mais emblemáticas do filme, o presidente Snow (Donald Sutherland) conversa com o idealizador dos Jogos, Seneca Crane (Wes Bently). “Por que nós temos um vencedor?” – ele pergunta – “Por que não matamos os 24 competidores de uma só vez? Não seria mais fácil e rápido?”. Esperança é a resposta. Uma faísca está de bom tamanho. Muita esperança é um perigo e precisa ser contida. Katniss representa, neste momento da trama, uma faísca que precisa ser contida.

Ao se dar conta de que não passa de uma pecinha nos manipuladores Jogos Vorazes da Capital – e do Governo –, Katniss a desafia mais uma vez no desfecho. Após salvar a vida de Peeta e conduzi-lo ao final da competição até que restem apenas eles dois, sob a falsa promessa de que juntos poderiam voltar para casa, Katniss se vê obrigada a escolher entre a própria vida e a dele. Ela, então, parece entender por conta própria as palavras proferidas pelo líder de Panem que só o espectador ouviu. Se é de um vitorioso que precisam, não terão nenhum. Num ato um tanto quanto shakespeariano, ela estende uma porção de amoras venenosas a Peeta e anuncia a morte de ambos no “três”. 1, 2, 3… A voz de Seneca Crane irrompe de autofalantes invisíveis e anuncia os dois vencedores da 74ª edição dos Jogos Vorazes.

Com a eficiência que só uma adaptação para o cinema é capaz de ter, a cena seguinte antecipa algo que só quem leu a continuação da trilogia de Collins sabia que estava para acontecer. Trancafiado em algum luxuoso cômodo da mansão presidencial, Seneca Crane é largado com nada além de uma porção de frutinhas azuladas à sua frente. É a prova de que o terceiro gesto de Katniss não passou despercebido aos olhos da Capital, de que ele não será perdoado, e os fãs podem esperar pela continuação da saga nos cinemas.

Por Gabriela Nogueira Cunha Via http://www.revistadehistoria.com.br

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2 Respostas to “Cultura de Bolso”

  1. Suz Figs 29/11/2012 às 12:26 #

    Eu adorei esse filme!!! E ainda não li o livro! Hehehehe

    • N(A)tiva 30/11/2012 às 01:52 #

      Eu vou ver o filme agora depois de ler essa reportagem.

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