Cultura de Bolso

2 dez

Gramática, pra que te quero?!

Ouvir alunos do ensino fundamental e médio esbravejarem frases do tipo “Eu detesto português”, ou “Eu já sei português, então pra que serve isso?” ou, pior, “Eu não sei português!” é algo muito comum no cotidiano dos professores de Língua Portuguesa. Sim, Língua Portuguesa, pois a aula não deveria ser de gramática, mas de Língua viva, real, do dia a dia. O português das gramáticas parece um idioma sem vida, empoeirado, algo que não se pode alcançar, de difícil acesso. Digo isso, pois é o que eu vejo no rosto de cada aluno meu quando tenho que repassar as regras para que eles possam ter êxito em concursos, por exemplo.

Acredito que pelo fato de saber um pouco mais sobre as temíveis nomenclaturas gramaticais eu me torne um ser admirável, de grande sapiência; às vezes, percebo no olhar da minha turma, formada por adultos, alguns bem mais velhos do que eu, um ar de fascínio ao mostrar a eles que há um tal sujeito oculto que difere do sujeito indeterminado, sendo que o sujeito é considerado um termo essencial da oração. Mas como ele pode ser essencial se, muitas vezes, não está lá? E o que dizer dos exercícios mecânicos e repetitivos de ortografia sobre o uso do “G” e do “J”? Mas deixemos de gramatiquices…

A pergunta que não quer calar é: por que insistem em cobrar regras, cheias de exceções? E os porquês? Na fala ele é apenas um, mas na escrita ele se desdobra em quatro. Talvez seja por isso que escrever de acordo com a norma padrão culta, para muitos, transforme-se em um grande tormento, uma prática surreal. Ter que lembrar qual tipo de “porque” usar, com certeza, destrói a inspiração de qualquer um. Talvez seja por isso, também, que os grandes escritores digam ter sido alunos não tão bons na disciplina e que hoje recorram aos revisores de textos para darem conta dessas estranhezas gramaticais.

Deveríamos, então, valorizar menos as regras e focar o ensino na prática de textos coerentes e coesos, pois do que adianta decorar uma lista de conjunções se na prática o “e” de adição pode funcionar também como adversativo? Que tal estudar gramática em textos reais e não em frases soltas expostas na lousa?

De que adianta os compêndios gramaticais instruírem que o verbo namorar é transitivo direto, ou seja, não aceita a preposição “com”, se 10 entre 10 falantes dizem que a fofoca da semana é que aquela famosa namora com o galã mais cobiçado do país? E a magia de dizer que você prefere mil vezes a comida da sua mãe do que a daquele restaurante caro e badalado? Mas “preferir mil vezes” e usar “do que” é um erro crasso para muitos gramáticos.

Às vezes, chego a pensar que falar segundo a gramática normativa deixa a vida sem cor, sem emoção. Não dá para expressar muito sentimento dizendo no PB (português brasileiro) “Amo-te”: parece que a ênfase está no “te” e não no ato de amar. Deve ser por isso que a licença poética existe e os artistas abusam e usam dos desvios gramaticais. Nesta ocasião, lembro-me do poema Evocação do Recife, do modernista Manuel Bandeira:

“[…] A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada […]”

E já pensaram se o famoso jingle de uma marca de iogurte seguisse a norma padrão? Ficaria assim: “Dá-me, dá-me, dá-me, dá-me um Danoninho…”. No mínimo estranho, não é? E a linda canção do poeta Cazuza, famosa na voz da saudosa Cássia Eller, ficaria “Quem sabe eu ainda seja uma garotinha …”. Não soou bem, não acham? É por isso que Renato Russo poetizou “[…] eu canto em português errado […]”: será mesmo? Isso porque a gramática normativa, ao pé da letra, se distancia muito da nossa fala corriqueira. E dá para acreditar que há alguns professores que insistem em utilizar tais gêneros para fazerem análises gramaticais?

Mas, respondendo à pergunta feita no título: bom, como já dito, ela ainda é muito solicitada em provas avaliativas em todo o país e questões sobre regência, concordância, uso da crase e dos porquês, que tanto atormentam aqueles alunos mencionados no início do texto, insistem em aparecer como forma de mensurar seu conhecimento sobre a nossa “última flor do Lácio, inculta e bela” – verso escrito, inclusive, por Olavo Bilac, que valorizava a arte pela arte e não a norma pela norma; pois, se assim fosse, com certeza a “última flor do Lácio” seria “muito culta e nada bela”.

Assim, a função ímpar da escola precisa ser o de formar leitores e escritores competentes, escritores que saibam produzir textos além da mecânica redação para vestibulares, leitores capazes de compreender enunciados diversos e textos do dia a dia. Então, torcemos para que os professores saibam adequar as propostas de leitura ao seu público alvo e que os clássicos da Literatura sejam apreciados com deleite e não por imposição.

Logo, faz-se necessário adotar novas práticas de ensino e métodos didáticos eficientes: ambos devem ser prioritários para uma disciplina tão relevante no currículo escolar. Dessa forma, teremos estudantes apaixonados pela nossa língua, que por ser tão nasalizada merece o status de “língua do dengo”, e não temida e repudiada pelas enfadonhas conjugações verbais e análise sintática.

*Carla Cunha é graduada em Letras/Inglês pela Universidade Salvador (UNIFACS), pós-graduanda em Gramática e Texto e tutora de disciplinas EaD e semipresenciais da UNIFACS.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: