Cultura de Bolso

16 mar

LENDAS DO HAITI E OS ZUMBIS NO CINEMA

Os termo “Zumbi” tem origem na mitologia do Haiti e os primeiros trabalhos cinematográficos relacionado ao assunto estavam inseridos nesse contexto. Nos anos 60, Romero criaria um conceito totalmente novo e original para os Zumbis, o que vem perdurando até os dia de hoje. Conheça um pouco sobre a origem dos filmes de Zumbis.

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Como sempre gostei de misturar assuntos, vou tratar agora de um pouco sobre história do cinema no que diz respeito à origem dos filme de Zumbi e também um pouco sobre colonização e mitologia do Haiti.

O que esses assuntos têm em comum? Você vai já vai entender.

Como vocês podem perceber os “zumbis” finalmente dominaram o mundo, mas isso não significa que o conceito de zumbi seja algo recente. Tivemos nessa última década uma grande quantidade de filmes, quadrinhos, jogos, séries voltadas aos Zumbis, mas o que nem todo mundo sabe é que eles estão por aí a mais de um século.

Hoje ao falar em Zumbi, imediatamente nos vem a mente a idéia de mortos-vivos com a carne apodrecida, sem qualquer raciocínio, agindo somente por seus instintos, perseguindo as pessoas em busca de carne fresca. Esse conceito foi criado no Cinema pelo cineasta George A. Romero , através do filme “A Noite dos Mortos-Vivos” de 1968, porém os Zumbis já estavam sendo usados no cinema a algum tempo, só que com outra roupagem. Essas primeiras obras tinham total influencia de lendas e crenças religiosas do Haiti.

Mas que crenças e lendas eram essas? Bem, vamos falar um pouco de historia agora:

Nos primeiros cinquenta anos de colonização do Haiti pelos europeus, a população nativa foi praticamente dizimada por meio de força bruta e proliferação de doenças. Com essa dizimação da população nativa e a necessidade de manter a produção de cana de açúcar a todo vapor, centenas de milhares de negros foram transportados da África para trabalhar como escravos. Com o tempo ocorreu uma mistura cultural, com crenças africanas se misturando a crenças católicas, resultando no que hoje é conhecido no ocidente como “vodu”.
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Mapa com a localização das Ilhas do Caribe, da qual faz parte o território do Haiti

Uma das crenças do vodu, assim como no cristianismo, é de que a alma e corpo representam entidades distintas, logo podendo ser separados. Essa separação, segundo o vodu, poderia ser provocada através de rituais.

Em meio a essa crença vodu no Haiti, começaram a surgir a lenda dos “feiticeiros oportunistas”, que se utilizavam de rituais vodu com o objetivo de recrutar trabalhadores para serem usados como escravos em regiões distantes, onde não seriam reconhecidos.

Mas segundo a lenda, de que forma os feiticeiros conseguiam recrutar esses trabalhadores? Vou explicar…

Tal situação acontecia quando os feiticeiros charlatões criavam uma combinação de magia e poções que provocaria a “morte” da vítima. Esta passaria mal em alguns dias e depois viria a “falecer”. As lendas dizem que o feiticeiro capturava a alma de suas vitimas e reanimava seus corpos sem alma para serem usados como escravos em diversas atividades no campo. Após usar esse método e conseguir separar o corpo da alma, o feiticeiro tinhas em suas mãos um individuo desprovido de raciocínio que poderia ser manipulado e usado para o trabalhado escravo.

Esta crença se integrou ao senso-comum do Haiti (uma especie de lenda do Boto, ou de lenda do saci-pererê do Caribe), fazendo com que os familiares dos recém-falecidos fizessem o possível para evitar que o corpo de seus entes queridos fossem reanimados, como por exemplo, através da construção de tumbas mais resistentes, do enterro em regiões movimentadas e até da contratação de “vigias de tumulo”, que permaneciam vigiando os corpos até o inicio de sua decomposição, quando não mais poderiam ser usados por feiticeiros. Se as medidas cabíveis não fossem tomadas, o povo acreditava que seus entes queridos poderiam levantar das tumbas como “zumbis”, termo que foi adotado pela cultura local para designar indivíduos cujo corpo havia sido separado de suas almas por feiticeiros.

As produções pré-George A. Romero e seu “ A Noite dos Mortos-Vivos ”, estavam totalmente voltadas para a mitologia do Haiti, com filmes de feiticeiros, poções mágicas, viagens ao Haiti e crenças vodu. Um exemplo dessas produções é o filme “ Zumbi Branco ” de 1932, com Bela Lugosi (o eterno Drácula).

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Capa do filme ” Zumbi Branco ” de 1932, com Bela Lugosi

Finalmente, em 1968, temos George A. Romero mudando para sempre a concepção de Zumbi. Romero os colocaria como seres sem alma(pois já estavam mortos), mas que de alguma forma eram reanimados e começavam a perambular por aí sem qualquer capacidade de raciocínio, apenas com o instinto mais básico: o da alimentação.

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O bom e velho George A. Romero

” A Noite dos Mortos-Vivos ” é uma história de reanimação misteriosa de pessoas que foram recentemente mortas(em nenhum momento é dado uma explicação para o fenômeno, apenas é sugerido hipóteses através de boletins jornalísticos). O filme é focado na luta pela sobrevivência de um grupo de indivíduos, que conseguem refugio em uma casa enquanto uma infinidade de mortos-vivos vai se acumulando do lado de fora. Há uma crescente sensação de claustrofobia a medida que seus protagonistas se vêm em uma situação cada vez maior de desespero com o avanço dos mortos-vivos casa adentro. É um filme que mesmo feito com poucos recursos acaba agradando pois a gravação em preto e branco acaba por disfarçar as limitações técnicas(o filme usava carne crua com calda de chocolate para simular tripas).

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Cartaz de divulgação do primeiro filme de Romero

Romero ainda faria 3 continuações para “A noite dos mortos vivos”:

-” Zombie – O Despertar dos Mortos (1978), que apesar de ter sido filmado 10 anos depois, acontece exatamente um dia depois do inicio da epidemia.
-” Dia dos Mortos “(1985), já se passa alguns anos depois, com o mundo completamente devastado e alguns grupos de sobreviventes espalhados pelo mundo.
-Em ” Terra dos Mortos “(2005), temos cidades-fortalezas construídas em meio as ruínas, totalmente cercadas em sua periferia para evitar a penetração de zumbis.

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Todos os filmes de Romero relacionados a Zumbi, inclusive o Remake de “Noite dos mortos vivos”, dirigido pelo maquiador dos filmes anteriores, Tom Savini.

Todos esses filmes de Romero têm um elemento em comum: utilizam zumbis como metáfora para levantar críticas a elementos da vida em sociedade, como por exemplo, a questão racial, feminista, militarista, o consumismo, as estratificações sociais e jogo de poder e por aí vai (Mas para tratar desses assuntos ficarei devendo uma postagem extra).

Concluindo:

Como você pode ver, o Zumbi contemporâneo está o tempo todo correndo por toda parte atrás de carne humana, mas o medo gerado pelo Zumbi do passado está relacionado ao “medo de se tornar um zumbi”(lendas locais) e não de ser “atacado por um Zumbi”, como é mostrado nas produções atuais.

Se hoje você se diverte adoidado assistindo a séries como “The Walking Dead” ,ou passa horas jogando Left 4 Dead, não se esqueça de agradecer ao velho Romero e sua trilogia de Zumbis (eu sei que são quatro filmes, mas quando o quarto filme saiu os Zumbis já tinham ganhado o mundo) , responsável praticamente por alavancar sozinho esse subgênero do terror durante três décadas.

Por 

Via http://lounge.obviousmag.org/

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